Por Padre Assis Pereira Soares

Vamos atravessando estes domingos de julho na rota das parábolas do capítulo 13 do evangelho segundo São Mateus. Hoje terminamos com as parábolas do “tesouro escondido”, da “pérola preciosa” e da “rede de pescar.” (cf. Mt 13, 44-52) As três estão unidas numa mesma intenção: ser cristão, conhecer Jesus, segui-lo na comunidade da Igreja é um grande tesouro pelo qual vale a pena todo esforço, toda procura, vender tudo. Mas, nada disto se pode descobrir sem um coração cheio da “sabedoria de Deus”, como o pediu o jovem rei Salomão na primeira leitura (cf. 1Rs 3,5.7-12).

“O biógrafo de Salomão destaca nele três facetas: sábio, construtor e rico. Das três, a que prevalece é a sabedoria. Para ouvir a sua sabedoria vieram pessoas de todos os povos, da parte de todos os reis da terra, que alguma vez tinham ouvido falar dela. (1Rs 5,9-14) A sabedoria de Salomão abarca todos os campos. O nosso texto sublinha a sua sabedoria como governante. Como prova, refere o que veio a chamar-se ‘juízo de Salomão’ (3,16-28). A sabedoria de Salomão manifestou-se também na organização administrativa interna do reino e no planejamento da política externa. A sabedoria de Salomão estendeu-se igualmente às letras e às artes. O que o texto salienta com mais vigor é que toda esta sabedoria é um dom de Deus. Foi-lhe concedida no contexto do santuário de Gabaon, como fruto da oração, acompanhada de sacrifícios. A melhor prova da sabedoria do rei de Jerusalém é a sua própria oração. É uma oração sábia e inteligente, por isso agradou a Deus. Na sua súplica Salomão não se deixou levar pelo egoísmo, pedindo antes a Deus bom critério para saber discernir entre o bem e o mal: numa palavra, pediu justeza na arte de bem governar.” (Bíblia Litúrgica)

O autor do livro da Sabedoria assim interpreta a oração de Salomão: “supliquei, e inteligência me foi dada; invoquei, e o espírito da sabedoria veio a mim. Eu a preferi aos cetros e tronos, julguei, junto dela, a riqueza como um nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, ao seu lado, é um pouco de areia, junto dela a prata vale quanto o barro. Amei-a mais que a saúde e a beleza e me propus a tê-la como luz, pois seu brilho não conhece o ocaso. Com ela me vieram todos os bens de suas mãos, riqueza incalculável. De todos eles gozei, pois é a sabedoria quem os traz.” (Sb 7, 7-12)

Sabemos que cada um de nós tem sua parcela de poder tanto em nível público como privado. Assim é fácil para nós compreender os sentimentos de insegurança diante da grande responsabilidade porque passa o jovem rei. Todos nós lidamos com algum tipo de poder, principalmente através das relações que estabelecemos no nosso dia a dia, para isso necessitamos “sabedoria ou discernimento” quer dizer, chaves que nos ajudem a decidir e atuar corretamente e não fugir e sair correndo pela porta de trás. Salomão não pede êxito em suas decisões, mas sim, saber discernir.

Fixemo-nos nas duas imagens evangélicas: do tesouro e da pérola. (cf. Mt 13, 44-52) “A comparação de Jesus, retoma a comparação dos sábios antigos, porque o Reino tem a ver com a presença de Deus e o comportamento humano. A sabedoria para o Antigo Testamento, era um modo de viver a justiça e a santidade de Deus e sentir o gosto por tudo o que provinha de Deus. O livro dos Provérbios insistia em que se procurasse a sabedoria como se busca um tesouro (Pr 2,4); ela é mais preciosa que as pérolas (Pr 3,15) e nenhuma joia tem seu valor (Pr 8,11).” (Neotti, 2001.)

Vamos expor conjuntamente as duas parábolas, como se fora uma só. Elas têm uma introdução idêntica; narram a descoberta de algo tão valioso que os protagonistas, um trabalhador do campo e um comerciante de pérolas, não duvidam nem por um instante em desprender-se de tudo, vender tudo o que possuem para comprar o terreno onde se encontra escondido o tesouro ou adquirir a pérola preciosa; pois não é todo dia que se tem a sorte de descobrir um tesouro ou encontrar uma pérola de imenso valor.

Qualquer pessoa ficaria muito feliz com uma descoberta semelhante. Todo homem e toda mulher buscam seu tesouro. Claro, alguns, o encontram; outros, jamais o encontrarão. E muitos creem ter encontrado um tesouro quando, na realidade, só acharam quinquilharias sem valor, bijuterias. A questão é saber, discernir, qual é nosso tesouro oculto, verdadeiro e necessário para que nossa vida seja melhor, mais alegre e feliz.

Um tesouro é algo que tem muito valor para nós e que, por isso mesmo, desejamos adquiri-lo e conservá-lo. Ao longo da vida podemos desejar ter e conservar diferentes tesouros, estando dispostos a renunciar a muitas coisas para consegui-los. A saúde, por exemplo, é um tesouro que todos valorizamos muito e desejamos ter e conservar, estando dispostos a renunciar a muitas coisas para não perdê-la. Mas também o dinheiro é um tesouro muito buscado por todos; o amor, a família, a amizade… Mas a parábola nos fala de um tesouro único, ao qual devemos subordinar todos os outros. Este tesouro único a que se refere Jesus é o “Reino dos Céus”. Para não nos perdermos muito em conceitos poderíamos dizer que para nós cristãos, o Reino dos Céus é mesmo Jesus de Nazaré. A fé em Jesus Cristo é esse tesouro ou pérola de grande valor que dá sentido a tudo o que somos e fazemos. Jesus é nossa opção fundamental e esta opção deve presidir e condicionar todas as outras. Optar por Jesus é segui-lo incondicionalmente, recusando tudo o que nos impeça segui-lo, ainda que tenhamos de por em risco a saúde, o dinheiro, a família, e o amor... Assim o fizeram grandes santos e místicos. Em nossa vida podemos seguir apreciando os tesouros aos quais aludimos antes, desde que não se oponham frontalmente à posse do tesouro único do qual nos fala o evangelho.

Deus é nosso tesouro. “É verdade que o Reino de Deus é graça, é concedido gratuitamente, mas não se dispensa o esforço de procurá-lo. ‘Buscai primeiro o Reino de Deus’ (Mt 6,33). Devemos buscar as coisas de Deus... Todos os mestres de espiritualidade sabem e ensinam que Deus quer ser buscado e quanto mais o temos, mais o procuramos”. (Ibid. Neotti.) A partir deste ponto de vista da pessoa que busca, o tesouro vem a ser como uma utopia: não se sabe onde está, nem sequer se existe em alguma parte. Só sabe que o necessita, só sente a inquietação de seu coração: “Onde está o teu tesouro aí está o teu coração.” (Lc 12,34). Onde está o coração, por isso buscamos incessantemente o sentido da vida. Por isso às vezes podemos agarrar-nos ao dinheiro, aferrar-nos ao poder, prender-nos à droga etc. No entanto o verdadeiro tesouro não é qualquer coisa a mais, mas Deus mesmo. Escondido em nosso mundo está o tesouro, é aí onde Deus se deixa encontrar e se oferece aos que o amam e o buscam. Deus mesmo se fez encontrar no homem e para o homem, aqui no meio de nós, Jesus Cristo é o lugar de Deus e o homem, o outro, o pobre, o irmão, é o lugar desse encontro com ele. Assim, o tesouro, o que dá sentido a nossa vida, já não é mais para nós crentes o que não existe em nenhuma parte, já não é uma utopia. Aquele que encontra Deus em Jesus Cristo e naqueles com os quais ele se identifica, sobretudo, os pobres, sente-se livre de tudo a que estava submetido e experimenta uma grande liberdade e alegria. E nesse encontro tudo tem já sentido, porque agora sabe onde está o coração.

Pois é esta alegria extraordinária que invade o coração dos protagonistas das parábolas diante do tesouro encontrado, perante o qual os outros bens que possuíam perderam o brilho e o valor. Para possuí-lo nenhum esforço ou renúncia lhe parecem excessivos. A mim,  parece-me que o centro da mensagem destas parábolas não é só esta alegria da decisão tomada, mas também a predisposição anterior para procurar, buscar encontrar o tesouro ou a pérola. Pois nem os tesouros nem as pérolas aparecem sem mais nem menos diante de nós. É a sabedoria ou parrésia (coragem) que os leva a buscar e com alegria arriscar tudo, entregar tudo o que têm por esse tesouro ou essa pérola encontrados. É necessário educar, transformar e fazer dócil e sábio o nosso coração para descobrir nas situações pessoais, comunitárias ou eclesiais a alegria. A chave para saber se estamos no espaço, no lugar e no tempo adequados será uma vez mais a alegria. Para entender que esse tesouro encherá de alegria nossa vida e nos saciará mais que qualquer coisa material que possamos pensar.

Ao meditar o evangelho deste domingo, nos perguntemos. Ao encontrar algo que realmente valha à pena e a alegria, sou realmente capaz de deixar o resto das coisas em segundo plano? O que tenho que vender para salvaguardar o tesouro de Cristo?

Finalmente, Jesus pergunta aos seus discípulos se eles entendem suas palavras. Uma pergunta que se dirige também a nós. São palavras simples e claras, que seria estranho que alguém não as entendesse. Temos que fazer como o escriba de que nos fala Jesus, ele mete suas mãos em seu velho baú para tirar dele o antigo e o novo. Dessa forma consegue que toda sua vida seja iluminada por esse rico arsenal de doutrina, de ideais e de recordações, que constituem seu mais apreciado tesouro. “O discípulo do Reino – aquele que descobriu o tesouro escondido no campo ou encontrou a pérola mais preciosa que poderia imaginar – não pode ficar inativo. A sua excepcional alegria tem de transparecer na vida plenamente realizada. O bem tende, pela sua própria natureza, a difundir-se.” (Bíblia comentada) Como nos diz São Paulo “sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus.” (Rm 8,28)

Bibliografia:

Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002.

Vários autores. Comentários à Bíblia Litúrgica, Portugal, Gráfica de Coimbra 2

Neotti, Frei Clarêncio. Ministério da Palavra, comentários aos evangelhos dominicais e festivos ano A. Petrópolis, Vozes, 2001.