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Por Mirko Testa
A escuta da Palavra de Deus deve ter como lugar privilegiado a liturgia e, portanto, o objetivo da «lectio divina» não pode ser outro senão uma iniciativa apropriada à grande celebração. Mas, ao mesmo tempo, não pode esgotar-se nela, e sim deve traduzir-se em uma prática de vida.
Assim o assegura o Pe. Bruno Secondin, carmelita, que desenvolve sua atividade pastoral em Roma e que trabalha na reelaboração da espiritualidade nos novos contextos eclesiais e culturais.
No Instrumentum Laboris para o próximo Sínodo dos Bispos, a «lectio divina» é indicada como «um elemento pastoralmente significativo que deve ser valorizado» para a educação e a formação espiritual dos presbíteros, das pessoas de vida consagrada e dos leigos, mas que requer «uma oportuna pedagogia de iniciação». O que o senhor opina a respeito disso?
Pe. Secondin: Apela-se à teologia da «lectio», a uma catequese, a uma paixão eclesial pela Palavra de Deus. Mas isso comporta um problema: o desafio de formar animadores para a «lectio». A novidade com relação à grande tradição é que agora se faz em grupo, em massa, e portanto é necessário reinventar o elemento comunitário como técnica, ritmo e animação. Muitos monges se opõem a isso, porque sustentam que a «lectio» é individual e assim deve continuar, porque, do contrário, ela se converte em uma celebração da Palavra, acontecimento festivo e coletivo.
Mas não se produzirá assim uma fratura do aspecto comunitário, que deveria estar presente na «lectio divina» até o ponto de que seu cume seria representado pela celebração eucarística? De fato, no Antigo Testamento vemos que o povo se reúne com freqüência diante do Deus que o chama e lhe dá sua Palavra antes de celebrar a Aliança; ou também no Novo Testamento, onde Jesus convoca uma comunidade ao seu redor, os discípulos, dá-lhes dom de sua palavra e celebra a nova Aliança.
Pe. Secondin: Certamente, este é um aspecto importante e uma observação muito justa que estamos tentando enfrentar, porque a «lectio» do monge, particularmente em sua celebração cotidiana do «opus Dei», é como um eco a posteriori e ao mesmo tempo como uma antecipação. Mas para o povo comum que não conta com isso, como pode fazer uma «lectio» em laboratório? O que é que oferece? Maior conhecimento e paixão. Certamente. Maior consciência de identidade, de pertença a um povo que escuta a Palavra. Certamente. Mas a Palavra deve conduzir ao cume, que é a Palavra celebrada, onde se verifica o que se diz, proclama, promete no zênite litúrgico, pascal, durante a Missa.
Por esta razão, tenho divergências com os monges que sustentam que é necessário «rezar» a Palavra, porque é nossa vida que lhe dá sucessivamente a forma orante; e que não há necessidade de propor a «actio», porque nosso viver é uma posta em prática da Palavra. Mas aos leigos, com sua vida diferente da nossa, que não vivem em um claustro monástico e não têm sua própria liturgia, o que lhes damos? Simplesmente anotações técnicas ou belas homilias sobre a Palavra?
Os leigos se perguntam como podem fazer desta palavra um trajeto de vida, um juízo sobre a própria vida, um propósito de vida. Por isso refletimos sobre esta experiência e tentamos ambientar a «lectio» em uma Igreja, em um contexto onde a Palavra depois ressoará celebrada, e em geral escolhemos uma das leituras que se escutarão durante a Missa, no lugar onde tem seu primado, de forma que se produz uma união visual com a liturgia, com o contexto onde depois se escutará sua proclamação.
Depois se introduzem formas de aplicação à vida, para permitir traçar uma prática. Também introduzimos fórmulas de resposta orante que os monges têm no breviário. Os leigos, em geral, precisam sentir que uma parábola ou um texto tem ressonâncias coloquiais com o Senhor, onde eu falo a partir do que me disse. A dificuldade é real: como se pode fazer de uma tradição que é individual e que é própria da vida monástica, com todos esses elementos que permitem sua resposta de oração, uma prática para as pessoas que se aproximam da Palavra de Deus lentamente?
Introduzimos também outro aspecto: em cada «lectio» tomamos uma frase a partir dos textos, compomos uma síntese breve e separamos um refrão ao qual acrescentamos uma música composta por nós, que ressoa repetidamente de maneira que envolva. Levamos a «lectio» a um nível mais íntimo, profundo, autêntico. É uma forma de chegar, por assim dizer, à «contemplatio». E observando as pessoas que vão, tenho a impressão de que muitos se encontram como em um estado de suspensão, como se estivessem perto do limiar ou do abismo do Mistério.
Junto ao texto comentado, que colocamos à disposição na internet, há também imagens para elaborar dentro de si mesmo um encontro pessoal. De qualquer forma, tentamos suscitar uma «lectio» pessoal, individual, cujo fruto é uma vida fiel ao que a luz da Palavra mostrou. Nosso intento está relacionado com a espiritualidade carmelita de formar uma Igreja que escuta, uma Igreja que responde, uma Igreja fiel que se conforma com Aquele que a ama, o Senhor, cuja Palavra escutou.
A outra dificuldade hoje está relacionada com o leitor, que já não é o medieval. Agora, o leitor está distraído e é incapaz de concentrar-se e de amadurecer uma reflexão. Como acostumar então as pessoas a levar a sério esta Palavra? Como aprofundar dentro do texto para ver a transformação da consciência da pessoa que se liberta, que se sente curada, que se vê chamada lentamente à verdade?
Quando se lê o Antigo e o Novo Testamento, impressiona a insistência na importância da escuta, como no «Shemá Israel», «Escuta, Israel» (Deuteronômio 6, 4) ou no conselho dos próprios profetas de «circuncidar» o ouvido, porque a fé nasce da escuta, recorda São Paulo. Agora, como é possível conciliar esta exigência fundamental na «lectio divina», que é o exercício de escuta em uma sociedade que privilegia o olho, a visão, a imagem?
Pe. Secondin: Nós nos encontramos diante de dificuldades objetivas: a que leitor ou destinatário estamos oferecendo a «lectio» e que itinerários lingüísticos estamos seguindo? Na «lectio» guiada, contemplando, por exemplo, alguns professores de referência, vê-se um fundo, uma fonte na qual esta se move; uma busca de sentido e de horizontes; o desejo de compartilhar a escuta da Palavra, da paixão por essa luz que se esconde detrás dos textos bíblicos e que se revela neles; a intenção de levar para uma beleza simbólica, mistagógica da Palavra. Deve-se oferecer ao que volta para casa, depois de uma hora de «lectio divina», a possibilidade de encontrar uma sabedoria de vida, um gancho, uma faísca que ilumine o caminho a corrigir.
Em todo caso, para escutar verdadeiramente não basta abrir o ouvido, mas se exige uma adesão mais íntima, para chegar a interpretar o código da alma de quem fala, e deixar que a luz penetre até dentro das paisagens escondidas no rosto escuro da própria alma. É necessário um coração inflamado, e não só um ouvido atento.
Fonte: Zenit
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