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por Jesús Colina
O segredo das instituições caritativas católicas não está em seus recursos humanos, mas na fonte de seu amor, explica o cardeal Paul Josef Cordes. O presidente do Conselho Pontifício Cor Unum chegou a esta conclusão ao traçar para Zenit um balanço do primeiro ciclo de exercícios espirituais que o organismo vaticano convocou de 1º a 6 de junho em Guadalajara (México) para os responsáveis das Cáritas diocesanas e nacionais do continente americano.
No retiro, dirigido pelo Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap., pregador da Casa Pontifícia, participaram também algumas organizações caritativas católicas que atuam no mesmo território, como a Sociedade de São Vicente de Paulo.
Segundo Cor Unum, «esta iniciativa é aplicação direta da primeira encíclica do Papa Bento XVI, Deus Caritas Est, e quer ser um estímulo para aprofundar na formação espiritual de todos aqueles que atuam em favor dos organismos católicos de ajuda e assistência».
Pela primeira vez, os responsáveis de algumas instituições caritativas da Igreja se reuniram em um retiro continental para meditar e orar. Naqueles dias se produziram emergências mundiais, como a crise dos preços dos alimentos que deixa as populações dos países em vias de desenvolvimento famintas. Não foi uma perda de tempo?
Efetivamente, poderia parecer assim, ao menos no âmbito prático. Creio, contudo, que se pode fazer um serviço melhor a favor dos pobres só quando as pessoas que se dedicam às atividades caritativas têm um profundo e sólido arraigo em Cristo e na vida eclesial.
Este encontro foi um forte investimento: a eficácia caritativa da Igreja não depende, como afirma Bento XVI em sua encíclica Deus Caritas Est, só do profissionalismo ou quantidade dos investimentos. O que caracteriza a intervenção caritativa é sua inserção na própria vida da Igreja, o fato de levar aos homens uma mensagem de esperança e de amor, o amor de Deus precisamente pelos que mais sofrem. Isso converte a ajuda em um ato de caridade, como o entende a Sagrada Escritura.
O Santo Padre afirma que uma atividade de ajuda cristã deve ser em primeiro lugar profissional e eficiente, mas que isso por si só não basta. Justamente sobre este ponto, o «não basta», quisemos organizar estes exercícios espirituais em Guadalajara. Pudemos constatar que, ainda que as dioceses de alguma forma já levem em conta também o aspecto espiritual, as pessoas têm uma grande sede de encontros desse tipo. Um dos participantes, no final dos exercícios, disse-me: «Eminência, volto à minha diocese, a meu trabalho, como recarregado, e com um grande e renovado desejo de continuar servindo, ajudando o próximo, assim como a Igreja nos pede».
A Igreja Católica é definida por muitos como «a ONG maior do mundo». O senhor concorda com esta definição? Qual é a diferença entre a Igreja e qualquer outra ONG?
O Pe. Cantalamessa, que dirigiu o retiro com suas conferências, enfrentou com freqüência esse tema. A maior caridade consiste em ajudar nosso próximo oferecendo-lhe, junto à ajuda concreta, também o bem maior, mais inefável: o próprio Cristo. A Igreja está chamada, portanto, a assistir os pobres, os necessitados, as pessoas atingidas por calamidades em suas necessidades materiais; mas junto a isso, quem atua como cristão – ou seja, partindo de sua fé – está chamado a levar o amor que Deus como Pai tem por cada homem, especialmente por quem sofre.
As ONGs estão habituadas a refletir sobre os problemas do mundo, como as catástrofes, a fome, a seca, as migrações, a guerra, para poder enfrentar sobretudo política e tecnicamente estes desafios. Dando prioridade a estes aspectos práticos e organizativos das intervenções, perde-se facilmente o aspecto espiritual profundo. Desde o ponto de vista quantitativo e com categorias puramente sociológicas, podemos certamente confirmar que a Igreja Católica é a maior ONG do mundo, mas este «primado» nos interessa muito pouco. A Igreja quer ser um sinal, tornar visível o fato de que nenhuma pessoa jamais ficou fora do olhar paterno de Deus, ainda que seja atingida por uma miséria destrutiva, terrível e desumanizadora. E, não menos importante, anunciar que existe uma vida eterna.
Além disso, há um segundo argumento: a grande força da Igreja se encontra no fato de que com freqüência, aqueles atuam nela, vivem «encarnados», arraigados, nas realidades concretas, em seu território: estão presentes, provêm daquelas mesmas situações de sofrimento, conhecem-nas pessoalmente. Por outro lado, contamos com um recurso extraordinário: a maior parte dos voluntários oferece sua ajuda gratuitamente. Eles já se comprometem antes da chegada de fundos ou meios por parte de outros.
O Papa enviou uma mensagem aos participantes para convidá-los a intensificar sua amizade com Cristo. Dirigindo-se aos responsáveis de grandes instituições de ajuda, pareceria que esta mensagem não enfrenta sua especificidade: a ajuda, o desenvolvimento... O senhor ompartilha esta opinião?
Um impulso pastoral não deve sublinhar tanto as qualidades já praticadas por quem escuta, mas aspectos às vezes mais despercebidos e que devem ser reforçados. O Papa pensa que, para enfrentar melhor os problemas reais, é necessário como fundamento e ponto de partida a amizade com Cristo. Esta amizade faz do agente da caridade um Bom Samaritano, segundo o modelo e o exemplo de Cristo.
O Pe. Raniero Cantalamessa disse que a Igreja não só deverá trabalhar com os pobres, mas deve ser pobre. O que significa e como o senhor vê este convite?
O Pe. Cantalamessa, que enfrentou verdadeiramente o núcleo do problema, sublinhou quão importante é a maneira como a Igreja se apresenta ao ajudar os pobres. Neste sentido, pôs como exemplo a beata Madre Teresa de Calcutá. É significativa a história muitas vezes citada daquele jornalista que, visitando a Casa dos Moribundos em Kalighat, após ter visto o trabalho das religiosas que cuidavam dos pacientes, exclamou: «Eu não faria isso nem por um milhão de dólares», ao que a Madre Teresa respondeu: «Nem eu!». A Madre Teresa havia compreendido, em seu carisma de ajuda aos mais necessitados, que em cada pobre estamos servindo Cristo. Frente ao pobre, diante do próprio Cristo, se não me apresento pobre, não viverei a verdadeira caridade.
Houve reações dos participantes a esta nova experiência?
Sim, muitos testemunhos de satisfação e gratidão. Estamos preparando agora uma publicação nas diversas línguas com algumas experiências, como recordação para os participantes. Também alguns participantes já puseram na agenda levar estes exercícios às suas dioceses, de acordo com o bispo local.
É a primeira vez que um organismo da Santa Sé organiza um encontro assim. Haverá outros?
É o que desejamos, dada a alegria e o entusiasmo experimentado, vivido e referido pelos participantes, De coração, sinceramente, espero que esta experiência possa ser repetida também nos outros continentes.
Fonte: Zenit
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