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<Setembro, 2010>
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ARTIGO
A prática do amor a Deus e ao próximo
por Pe. José Assis P. Soares
Neste Domingo o evangelho de São Lucas nos apresenta a figura do bom samaritano (Lc 10,25-37) que nos leva como comunidade cristã a experimentar nossa vocação ao amor ao próximo e nos mostra que não basta o conhecimento; é preciso por em prática: “Vai e faze o mesmo”.

“Um escriba, portanto um mestre em exegese, pergunta ao Senhor: ‘Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?’ (Lc 10,25) O evangelista diz a propósito que o escriba dirigiu esta pergunta a Jesus para o experimentar. Por ser formado nas Escrituras ele mesmo sabe a resposta que a escritura dá a esta pergunta, mas ele quer saber o que este profeta sem estudo da Bíblia dirá a este respeito. O Senhor remete-o muito simplesmente para a Escritura, que ele conhece, e deixa que o próprio escriba dê a resposta. O escriba o faz de um modo muito preciso, numa ligação do Deuteronômio 6,5, com o Levítico, 19,18: ‘Tu deves amar o Senhor teu Deus com todo o coração, com todas as tuas forças e com todos os teus pensamentos, e: deves amar o teu próximo como a ti mesmo’. [...]

‘Quem é, então, o próximo’? A esta pergunta tão concreta, Jesus responde então com a parábola do homem que caiu nas mãos dos ladrões no caminho que vai de Jerusalém para Jericó e que foi abandonado saqueado e quase morto ao lado da estrada. Esta era uma história absolutamente real, visto que ao longo daquele caminho aconteciam regularmente assaltos como este. Um sacerdote e um levita – conhecedores da Lei, que conheciam a questão da salvação e que a serviam por profissão – passam por ali e não prestam atenção no ocorrido. Eles não deviam necessariamente ser pessoas duras de coração; talvez tivessem medo e por isso procuravam o mais depressa possível chegar à cidade, talvez fossem pessoas sem habilidade e soubessem como fazer para ajudar – além do que parecia que já nada mais havia que se pudesse fazer. Então aparece no caminho o samaritano – provavelmente um comerciante, que tinha de passar por esta estrada muitas vezes e que era conhecido do proprietário da estalagem mais próxima; um samaritano – portanto alguém que não pertence à comunidade solidária de Israel e não precisava, consequentemente, olhar para o assaltado como seu ‘próximo’ [...]

Aqui entra em ação o samaritano. O que vai fazer? Não pergunta a respeito do raio de extensão dos seus deveres de solidariedade nem sequer sobre merecimentos para a vida eterna. Acontece algo completamente diferente: o seu coração como que se rasga; o Evangelho usa a palavra que originariamente em hebraico se referia ao corpo materno e à relação maternal. Ele é atingido nas suas ‘entranhas’, na sua alma, ao ver este homem assim. ‘Foi tomado de compaixão’, traduzimos hoje, atenuando assim a originária vitalidade do texto. Por meio da luz fulminante da misericórdia que alcança a sua alma, torna-se ele mesmo ‘próximo’, para além das perguntas e dos perigos.

Neste ponto, a questão vai em outra direção: já não se trata de saber quem é o meu próximo ou não. Trata-se de mim mesmo. Eu tenho de me tornar próximo porque, o outro conta comigo ‘como eu mesmo’”. (Bento XVI, 2007.)

A prática do amor a Deus e ao próximo, sem restrições nem exclusivismos é que define o ser cristão. A maneira de amar o próximo consiste em ajudar o marginalizado, o homem assaltado é simplesmente um símbolo de todas as pessoas que padecem, justa ou injustamente, com razão ou sem ela. A lição de Jesus é muito clara, nova e forte: a misericórdia não tem fronteiras religiosas, geográficas ou de sangue. A misericórdia não faz restrições. É obrigação de todos.

Jesus está dizendo que o bom próximo não quer saber de razões nem faz perguntas. Dá conta, simplesmente, de que existe uma miséria e oferece a sua assistência. O caráter, funções ou responsabilidade daquele que se encontra ferido, são problemas totalmente marginais. A lei que tudo rege é a descoberta da necessidade alheia e a prontidão em oferecer ajuda.

Jesus mostra que o amor por Deus, e o amor para o próximo, entrelaçam-se e se exigem. O amor a Deus não tem sentido se não vem entrelaçado existencialmente como amor ao próximo.

Orígenes (254) numa das mais antigas interpretações sobre essa parábola afirma que “o samaritano é o Cristo e a hospedaria é a Igreja”. Sim, o samaritano é Jesus. No seu amor, manifesta-se e realiza-se o grande amor que Deus tem pela humanidade. Dessa maneira, o amor ao próximo que aqui se recomenda, é interpretado como uma continuação do amor que Deus nos ofereceu. O samaritano é também o modelo perfeito do verdadeiro discípulo, encarnação da misericórdia divina que ama a humanidade caída à margem da vida. A Igreja em sua mensagem deve oferecer à humanidade o mistério do amor de Deus e convidar-nos a nos comportar de maneira coerente. Vimos na parábola que passou junto ao homem ferido um sacerdote e depois um levita. Ambos o viram, mas seguiram adiante o seu caminho. Esta menção deve ter ruborecido o interlocutor de Jesus e o resto das autoridades religiosas que o escutavam nesse momento. Também nós pastores da Igreja e todos os discípulos de Cristo, temos de sentir-nos diretamente interpelados por esta indicação do Mestre. Não podemos passar ao largo ante esse “homem” que encontramos hoje, marginalizado ou excluído em nosso caminho, em nossas ruas.

A palavra de Deus nos chama a um profundo exame de consciência e a credibilidade de nosso anúncio cristão requer que amemos com ações, com a prática. É precisamente um samaritano, considerado habitualmente pelos contemporâneos de Jesus como um infiel desprezível, quem se move a compaixão ante o homem ferido e se desvela em cuidados por ele. O samaritano é a figura de pessoa que vive para os outros, aberto a compartilhar os sofrimentos dos outros. Damos graças a Deus toda a dedicação de tantas pessoas membros da Igreja ou não que em nossa sociedade revivem com intimidade de gestos ocultos a atitude generosa, profundamente humanista do samaritano que se aproximou do homem maltratado. São muitos os que acolhem com amor aos pobres, desvalidos e desamparados deste mundo.

“Fica claro que, para Jesus, perguntar quem é meu próximo é um falso problema. O problema está aqui, ao meu lado, mas preciso de olhos para vê-lo. O verdadeiro problema está em eu me fazer próximo de todos, abatendo muros e barreiras dentro de mim e em torno de mim. As barreiras podem ser raciais, sociais, religiosas, econômicas; mas podem também provir do meu orgulho, de auto-suficiência e do sentimento desequilibrado da antipatia. Nenhuma razão é suficiente para excluir alguém de ser meu próximo. Se não me faço próximo de quem está ao meu lado, Deus não pode fazer-se próximo de mim, porque há um entrelaçamento entre o meu amor a Deus e o meu amor ao próximo, entre o amor que Deus tem por mim e o amor que eu tenho para com o meu próximo”. (Neotti, 2003.)

Meu próximo é uma pessoa qualquer que encontro jogado no caminho, excluído, ferido, abandonado... Esta pessoa concreta está apelando à consciência de quem a encontra, para que reconheça no rosto desfigurado e no corpo disforme e dolorido a imagem do irmão, do outro eu que pede uma ajuda efetiva, uma mão próxima.

“É óbvia a atualidade da parábola... não encontramos também por acaso à nossa volta pessoas saqueadas e destroçadas? As vítimas das drogas, do comércio de seres humanos, do turismo sexual, homens interiormente destruídos, que estão vazios no meio de uma riqueza material. Tudo isso nos diz respeito e nos chama para termos olhar e coração para o próximo e também a coragem para o amor fraterno. Pois, como foi dito, o sacerdote e o levita seguiram adiante talvez mais por temor do que por indiferença. De novo e a partir do interior é que havemos de aprender o risco da bondade; só havemos de poder fazer isso se nós mesmos formos ‘bons’ a começar de dentro, se a começar de dentro formos próximo e então estivermos atentos ao modo do serviço que nos é exigido no nosso ambiente e no raio maior da nossa vida e que a nós possivelmente, e a partir daí, nos é confiado como tarefa”. (Ibid. Bento XVI, 2007)

Bibliografia
Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo, Editora Planeta, 2007.
Neotti, Frei Clarêncio. Ministério da Palavra, Ano C. Petrópolis, Vozes, 2003.
 
O conteúdo das informações neste artigo é de inteira responsabilidade do autor.
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